Estamos em dezembro e os números são alarmantes. É hora de falar, de proteger e de agir.

Dezembro de 2025. Faltam poucos dias para o Natal, tempo de celebrar a vida e de abraçar quem amamos. Mas em Mato Grosso do Sul, 39 famílias não terão suas mulheres à mesa. 39 cadeiras vazias. 39 histórias interrompidas pela violência. 39 feminicídios que não podem ser apenas números nas estatísticas.

Karina, Vanessa, Juliana, Mirieli, Emiliana, Giseli, Alessandra, Ivone, Thácia, Simone, Olizandra, Graciane, Vanessa Eugênia e a pequena Sophie de apenas 10 meses, Eliane, Doralice, Rose, Michely, Juliete, Cinira, Salvadora, Dahiana, Letícia, Érica, Dayane, Iracema, Gisele, Ana Taniely, Erivelte, Andreia, Solene, Luana, Aline, Mara, Rosimeire e Irailde, Gabrielle, Alliene e Ângela. Cada nome é uma vida. Cada vida tinha sonhos, família e histórias.

Escrevo este texto com o coração apertado, mas com a consciência de que precisamos falar sobre isso. Como psicóloga, atendo mulheres todos os dias. Vejo o medo nos olhos, ouço as desculpas que elas inventam para justificar a violência, sinto a vergonha que carregam como se a culpa fosse delas. Mas a culpa nunca é da vítima.

Em Dourados e região, incluindo nossas comunidades indígenas, a realidade é ainda mais dura. Muitas mulheres vivem isoladas, longe de ajuda, presas em ciclos de violência que parecem não ter fim. Mas eu preciso que você saiba: tem fim sim. E esse fim pode ser a sua liberdade, não a sua morte.

O Que Está Acontecendo? Por Que Tantas Mortes?

O feminicídio não acontece do nada. Ele é o final trágico de um caminho de violência que, na maioria das vezes, vem acontecendo há meses ou anos. É a violência contra a mulher pelo simples fato de ser mulher, pelo machismo que ainda existe e que faz alguns homens acharem que têm direito sobre a vida das mulheres.

Olhe os casos de 2025 em nosso estado: muitas dessas mulheres foram mortas por companheiros, ex-companheiros ou maridos. Homens que diziam amar, mas que na verdade queriam controlar. Homens que não aceitavam o fim do relacionamento, que achavam que a mulher era propriedade deles.

Amor não mata. Amor não bate. Amor não controla. Amor não humilha.

O que mata é a posse, o ciúme doentio e o desejo de poder sobre o outro. E isso não é amor, nunca foi e nunca será.

Como Identificar Se Você Está em um Relacionamento Abusivo

Muitas mulheres não percebem que estão em perigo porque a violência não começa com socos e facadas. Ela começa devagar, quase invisível, e vai crescendo até que um dia você se vê presa, com medo, sem saber como saiu daquela situação.

Sinais de Alerta – Preste Atenção:

  • Ele controla onde você vai, com quem você fala ou que roupa você usa. Às vezes parece cuidado, mas é controle. Amor confia, controle sufoca.
  • Ele mexe no seu celular, quer suas senhas ou liga várias vezes por dia para saber onde você está. Isso não é amor, é possessão.
  • Ele te humilha na frente dos outros ou em particular. Chama você de burra, feia, incompetente. Diz que você não serve para nada e que ninguém mais vai te querer.
  • Ele te isola da família e dos amigos. Diz que sua mãe é intrometida e que suas amigas são má influência. Aos poucos, você fica sozinha, só com ele.
  • Ele tem ciúmes excessivos. Não é ciúme de quem ama, é ciúme doentio. Ele desconfia de tudo, te acusa sem motivo e faz escândalos.
  • Ele controla o dinheiro. Não te deixa trabalhar ou pega todo o seu salário. Você não pode comprar nada sem pedir autorização.
  • Ele te ameaça. Diz que vai te matar, matar seus filhos ou se matar se você sair. Acredite nas ameaças. Leve a sério.
  • Ele bate, empurra, puxa o cabelo ou te machuca fisicamente. E depois pede desculpas, chora, promete que vai mudar, diz que foi por causa da bebida ou do estresse. Mas volta a fazer de novo.
  • Ele te força a ter relações sexuais. Mesmo sendo seu marido ou namorado, se você não quer e ele força, isso é estupro. Você tem direito de dizer não.
  • Você vive com medo. Tem medo de falar algo errado, de fazer ele ficar bravo, de chegar em casa e não saber como ele vai estar. Medo não é amor.

Se você se identificou com três (03) ou mais desses sinais, você está em um relacionamento abusivo e precisa de ajuda.

O Ciclo da Violência: Por Que É Tão Difícil Sair?

Muita gente pergunta: “Por que ela não saiu antes?” “Por que ela voltou para ele?” Quem nunca viveu isso não entende, mas existe uma explicação. A violência não acontece o tempo todo, ela acontece em ciclos que prendem a mulher como se fosse uma armadilha.

As Fases do Ciclo da Violência:

1ª Fase: Tensão

Tudo começa com pequenas discussões. Ele fica irritado por qualquer coisa, você sente que algo está errado, fica pisando em ovos para não irritá-lo. A tensão aumenta como uma panela de pressão prestes a explodir. Você sente que está no limite, mas ainda tem esperança de que vai passar.

2ª Fase: Explosão (Agressão)

Acontece a violência. Pode ser verbal (xingamentos e humilhações), psicológica (ameaças e manipulação) ou física (empurrões, socos ou tentativa de morte). É nessa fase que ele perde o controle e você se sente em perigo real. O medo é enorme e o sofrimento é profundo.

3ª Fase: Lua de Mel (Arrependimento)

Depois da violência, ele muda completamente. Pede desculpas, chora, traz flores, promete que nunca mais vai acontecer, diz que ama você, que precisa de você, que vai fazer terapia e que vai mudar. É nessa fase que a mulher volta a ter esperança. Ela acredita que ele realmente vai mudar, que o amor vai vencer. E por um tempo, ele realmente é gentil, carinhoso, mas é uma máscara.

O Ciclo Recomeça

A tensão volta a crescer e o ciclo se repete. Só que a cada volta, a violência fica pior. As explosões ficam mais frequentes e mais graves. A lua de mel fica mais curta. Até que um dia, ele pode te matar.

É por isso que é tão difícil sair. A mulher está presa emocionalmente nesse ciclo. Ela tem medo, mas também tem esperança. Ela quer acreditar que ele vai mudar. Mas a verdade dura é: sozinho, ele não vai mudar. E enquanto você espera, sua vida está em risco.

Para nossas irmãs indígenas: Sei que em muitas aldeias, falar sobre violência dentro de casa é ainda mais difícil. As tradições, o que a comunidade vai pensar, o medo de ser julgada pesa muito. Mas a violência contra a mulher não é tradição, não é cultura. É crime. Sua vida vale mais que qualquer julgamento. Existem pessoas prontas para te ajudar, que entendem e respeitam sua cultura, mas que sabem que sua segurança vem em primeiro lugar.

Como Denunciar e Buscar Ajuda

Se você está lendo isso e se reconheceu em alguma parte, eu preciso que você saiba: você não está sozinha. Existe ajuda. Existe saída. Existem pessoas que se importam e que vão te proteger.

🆘 Canais de Ajuda – Ligue Agora Se Precisar:

190 – Polícia Militar (Emergência)

Ligue se estiver em perigo AGORA

180 – Central de Atendimento à Mulher

Funciona 24 horas, todos os dias, inclusive finais de semana. É gratuito e você pode ligar de qualquer telefone.

Em Dourados:

Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM)
📍 Rua Francisco Feitosa Sobreira, 820, Vila Bela, CEP 79813-040
☎️ (67) 3423-0928
🕐 Segunda a sexta, das 7h30 às 18h30

Se a DEAM estiver fechada:
Vá à Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (DEPAC) ou ligue 190

Centro de Referência da Mulher – Viva Mulher
Oferece atendimento psicológico, social e orientação jurídica gratuita
📍 Rua Hiran Pereira de Matos, 1520 – Vila Mary, Dourados – MS, 79831-250
☎️ (67) 2222-1852

Casa da Mulher Brasileira – Campo Grande
Se precisar de acolhimento, proteção ou sair da cidade
📍 R. Brasília, Lote A, Quadra 2 s/n – Jardim Ima, Campo Grande – MS, 79102-050
☎️ (67) 2020-1300

Defensoria Pública – Núcleo Institucional de Promoção e Defesa da Mulher
Orientação jurídica gratuita, medidas protetivas
☎️ (67) 3313-4919 – nudem@defensoria.ms.def.br

O Que Fazer Passo a Passo:

Se você está em perigo agora:

  • Ligue 190 imediatamente
  • Se não puder falar, deixe a ligação aberta para que ouçam o que está acontecendo
  • Saia de casa se puder, vá para a casa de alguém ou para um lugar público
  • Grite, peça ajuda aos vizinhos

Se você quer sair dessa situação:

  • Procure a Delegacia da Mulher ou ligue 180 para orientação
  • Peça uma medida protetiva de urgência (isso faz com que ele não possa chegar perto de você)
  • Conte para alguém de confiança: sua mãe, irmã, amiga ou vizinha
  • Guarde provas: fotos de hematomas, mensagens de ameaça, áudios e testemunhas
  • Faça um boletim de ocorrência sempre que ele te agredir ou ameaçar
  • Busque atendimento psicológico para te fortalecer nesse processo

Prepare uma “mochila de fuga”: 
Se precisar sair rápido, tenha em um lugar escondido: documentos seus e dos filhos, um dinheiro guardado, roupas, remédios, números de telefone importantes.

Importante: Você NÃO precisa provar que sofreu violência para pedir ajuda. Você não precisa estar machucada. Se você sente medo, se ele te ameaça, se você não tem liberdade, isso já é violência e você tem direito à proteção.

Para Quem Conhece Alguém Nessa Situação

Se você tem uma amiga, irmã, vizinha ou colega de trabalho que está sofrendo violência:

  • Acredite nela. Não julgue e não diga “por que você não sai?”. Ofereça apoio.
  • Mantenha contato. Mesmo que ela volte para ele, continue sendo amiga. Ela vai precisar de você.
  • Ofereça sua casa como refúgio se ela precisar fugir de emergência.
  • Ajude ela a guardar provas e a buscar ajuda profissional.
  • Se você suspeitar que ela está em perigo grave, denuncie. É melhor ela ficar brava com você do que morrer.
  • Ligue 180 ou 190 se você testemunhar uma agressão.

Cada um de nós pode ser a diferença entre a vida e a morte de uma mulher. Não fique calado.

Escrevi este artigo com o propósito de informar, acolher e salvar vidas. Compartilhe com quem você acha que pode precisar. Às vezes, uma palavra no momento certo pode mudar tudo.

Se você precisa conversar, busque ajuda profissional. O primeiro passo é sempre o mais difícil, mas é o mais importante.


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